Mulheres na política em Jundiaí e o preço que só elas pagam
Mulheres na política são 53% do eleitorado de Jundiaí e ocupam 15,8% da Câmara. O que sustenta esse desequilíbrio às vésperas da campanha eleitoral.
Em Jundiaí, 178.719 mulheres estão aptas a votar. São 53% do eleitorado. Na Câmara Municipal, elas ocupam três das 19 cadeiras — 15,8%. A cidade nunca elegeu uma prefeita. Em 2016, não elegeu nenhuma vereadora. Em 2020, elegeu uma.
Os números de mulheres na política costumam ser lidos como retrato natural das coisas, quase demográfico. Não são. Eles descrevem um resultado, e resultados têm causa.
A conta que não fecha sozinha
A explicação mais confortável para a escassez de mulheres na política é a de que faltam candidatas dispostas a disputar. Os dados desmentem essa leitura com alguma dureza.
Levantamento divulgado nesta semana pela Rede A Ponte, que ouviu mais de 70 vereadoras de todo o país, mostra que 77% dos episódios de violência política relatados por elas acontecem dentro da própria Câmara Municipal. Em 64% dos casos, durante o exercício do mandato. Em 34%, o autor é um colega do mesmo partido.
Ou seja: para as mulheres na política, o ambiente mais hostil não é a urna. É o exercício do cargo depois de eleita. E, com frequência, a hostilidade vem de dentro de casa.
O Censo das Prefeitas Brasileiras, do Instituto Alziras, referente ao mandato 2021-2024, aponta que 58% das prefeitas afirmaram ter sofrido assédio ou violência pelo fato de serem mulheres. Metade não denunciou. Entre 2021 e 2025, 62 ações penais eleitorais sobre o tema foram mapeadas no país. Nenhuma resultou em condenação definitiva até a divulgação do estudo.
Mulheres na política entram sabendo disso. Fazem uma conta que os homens não precisam fazer. Esse é o preço. Ele não aparece em nenhuma estatística de candidatura, mas está embutido em todas elas.
A imprensa não assiste de fora
Aqui é preciso dizer o que raramente se diz, especialmente pelos meios de comunicação: parte da conta que as mulheres na política pagam é cobrada pela cobertura jornalística. Inclusive na nossa região.
Não é raro que um texto trate a movimentação de uma mulher como intrusão e a de um homem, idêntica, como estratégia. Que ele apareça com cargo, pasta e histórico de gestão, enquanto ela aparece como alguém que "ainda constrói sua trajetória". Que a base eleitoral de um município seja descrita como propriedade de alguém e a presença dela ali, como invasão. Que ela seja descrita do primeiro ao último parágrafo sem jamais ser ouvida, com a motivação de seus atos afirmada por dedução de quem escreve.
Nada disso exige uma ofensa explícita. Nenhuma dessas frases seria classificada como misoginia se lida isoladamente. O efeito, porém, é o mesmo: ao fim do texto, o homem tem currículo e a mulher tem ambição.
Existe um teste simples para isso, e ele é barato de aplicar. Trocar os nomes. Se o texto não se sustenta com os gêneros invertidos, o problema não estava no fato — estava no enquadramento.
O que já aconteceu aqui
Quando o assunto é hostilidade contra mulheres na política, Jundiaí não é exceção e não precisa recorrer a exemplos distantes. Neste ano, uma parlamentar da cidade foi alvo de ofensas discriminatórias em via pública, em episódio que terminou com prisão em flagrante e chegou ao plenário da Câmara, onde motivou projeto de lei. O caso é público e está documentado.
Registrar isso não é constranger ninguém. É reconhecer que o fenômeno tem endereço local, e que tratá-lo como problema de outros lugares seria conveniente e falso.
Vale lembrar que, desde 2021, há tipo penal específico. A Lei nº 14.192 incluiu o artigo 326-B no Código Eleitoral, com pena de reclusão de um a quatro anos para quem assedia, constrange, humilha, persegue ou ameaça candidata ou detentora de mandato por menosprezo à sua condição de mulher. É crime de ação penal pública incondicionada — o Ministério Público não depende da vítima para agir.
O que observar até outubro
Com o registro de candidaturas encerrado em 15 de agosto, a Justiça Eleitoral divulgará o percentual final de candidaturas femininas e verificará o cumprimento da cota de 30%. Portanto, os próximos meses indicarão se o patamar de representação se altera na região. O período de campanha também tende a concentrar registros de violência política de gênero, cabe ao eleitor perceber esses movimentos.

